Tuesday, September 25, 2007

NÚCLEO TÁVOLA

SE APENAS POR UM INSTANTE...


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

-Pudéssemos imaginar que somos seres de mistério, sempre convidados à tarefa de percorrer o campo de nossos enigmas. Que nesse caminho concebêssemos a possibilidade de que podemos ser mais do que pensamos ser, e nessa experiência de ser reconhecêssemos o outro como condição fundante de nossa subjetividade.
-Perceber que em nós a presença de um inconsciente dinâmico nos coloca sempre em plena abertura ao fluxo da vida, em seu imprevisível devir, em sua sempre renovada possibilidade de nos surpreender, surpresa e estranhamento primeiro e fundamentalmente conosco mesmos.
-Valorizar a vivência um tanto atordoante de um estranhamento em relação a nós mesmos, na esteira do que tal estranhar nos possa mostrar imagens diversificadas do que somos.
-Aprendêssemos que nossa busca sempre repetida por uma imagem fixada do que somos nos encaminha rumo à psicopatologia, porquanto tal esforço visa barrar em si a angústia da experiência de um tempo psíquico que articula, no encontro com o acontecer atual da vida, vários registros de reminiscências do passado, projetando futuros possíveis à dinâmica de nosso desejo...
-Tivéssemos um sentido de responsabilidade em relação a nossas vidas, não buscando nos alienar a promessas de felicidade empacotada vinda de milagrosas poções sempre cada vez supostamente mais modernas, que nos libertassem do percurso em busca de uma singularidade que ninguém pode nos presentear ou, ainda mais importante, autorizar...
-Imaginássemos, e é sempre importante podermos lembrar que somos seres que por mais que façamos não escapamos à capacidade de imaginar, que nosso caminho não está pronto e o destino já decidido; que somos capazes de agir intervindo no mundo e nas relações com o outro; que somos capazes de fazer alguma diferença na medida em que algo de nossa própria diferença possa se colocar para nós mesmos; talvez assim possamos deixar de nos encontrar com o desolador sentimento de superfluidade de si em um mundo que nos aparece como pronto e loteado, onde nada mais há a se pensar e agir.
-Deixar de lado a idéia de que nossa felicidade pessoal possa estar em uma busca desenfreada de um conjunto de estimulações que visam repor a manutenção de um corpo alerta, visto modernamente como fonte de uma felicidade que sempre acaba por se tornar algo que persegue o sujeito. Estranho paradoxo moderno esse de uma busca de felicidade que se torna uma disciplina obsessiva e que tem no corpo o alvo. No campo moderno da felicidade sensorial, corpos de revista e cadáveres adquirem uma estranha irmandade, um comum pertencimento de nascença cultural...
-Encontrássemos nos paradoxos e equívocos do encontro amoroso algo que pudesse se colocar como a imagem de uma redenção, em um mundo no qual as possibilidades de vivência amorosa são solapadas pelo imenso temor frente ao ridículo de si; mundo no qual Fernando Pessoa e suas “ridículas cartas de amor” não mais teriam lugar frente ao desencanto com o outro e o modo como ele é visto em termos de fonte de sofrimento.
-Apostarmos na imensa capacidade humana para a criação do novo impensado e inconcebível, no sentido de alimentar nossa crença de que em algum momento, em algum lugar, alguém possa estar fazendo algo que nos mostra e destrói nossa imagem de fixidez de um mundo humano pronto e acabado.
-Deixarmos de apostar na saída cínica como a única possível, no sentido de nos proteger e não permitir que percebamos que temos uma profunda demanda pelo outro; saída que tem na arrogância sua marca, fazendo do outro uma imagem apenas enquanto violência potencial contra si ou objeto passivo de desprezo que impossibilita relações...
-A fala pudesse ser algo com que nos implicássemos, não fazendo de nossa relação com as palavras algo vazio, sem nossa própria implicação no que dizemos e ficamos por dizer, fazendo com que nossa crença nas palavras seja algo parecido com nossa relação com um caixa eletrônico bancário, em que a linguagem presentifica um outro ao qual pagamos um tributo para não o encontrarmos...
-Para além do narcisismo que nos incita a acreditar que amanhã eu faço, porque um amanhã com certeza eu terei, na medida em que não concebo como o mundo possa ter existido sem mim antes de meu nascimento e fico preocupado com seu destino após minha morte, eu possa ver que minha vida e meu sofrimento estão inseridos em um campo simbólico frente ao outro no qual ocupo um certo lugar, lugar esse que articula meu destino afetivo em uma rede que me atravessa e que me precede.
-Eu pudesse crer que meu leitor pudesse pensar com algum carinho no que aqui busco transmitir, sem a tarja desqualificante de um sonho passadista em um mundo que nunca existiu ou nunca pôde existir; frente a um mundo hoje onde nossa imagem de um pragmatismo eficaz nos hipnotiza como a única coisa capaz de nos trazer alguma realização... Caberia assim perguntar, realização de que? De nossa renúncia e temor ao risco da inserção de nossa singularidade no mundo e com o outro?


Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomática@gmail.com
nucleotavola@gmail.com








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A SOLIDÃO DO PÂNICO

A SOLIDÃO DO PÂNICO


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

A experiência do pânico tem tido uma freqüência que não deixa de nos intrigar. O que vem se passando para que a pronúncia da palavra pânico venha ocupando lugar de destaque nas descrições dos sujeitos de suas vivências na atualidade. Quais seriam os componentes culturais e psíquicos ligados a essa experiência?
Parece que os relatos da vivência de pânico envolvem algo de uma profunda solidão, que sempre marca também a relação com os fantasmas que nos habitam, fantasmas esses que descrevem em última instância a presença do outro em nós.
Em outras palavras, falar da relação com nossos fantasmas significa algo ligado a um nos remeter a um outro tempo, não de uma perspectiva cronológica, mas de um tempo remanescente, reminiscência viva da presença de relações que se ancoram no que Freud se refere de modo amplo como o infantil. Com esse termo o fundador da psicanálise buscava apontar para a presença contínua em nossas vidas de moções, formas de vínculos primevos e objetos que fundaram, em sua singularidade, a subjetividade de cada um de nós.
Podemos perguntar o que isso tudo tem a ver com o tema que propusemos da solidão associada à vivência do pânico. Porque falamos da solidão ligada ao pânico? A experiência de solidão frente às reminiscências de nosso infantil é diferenciada no sentido do desamparo que a acompanha e nos paralisa...
No processo de vir a ser humano a que chamamos subjetivação, somos constituídos e atravessados por uma complexa teia de significados postos pela cultura, enquanto ambiente onde tal processo se desenrola. Nesse ambiente, o encontro com o outro é condição fundamental para a subjetivação do sujeito. No entanto, o encontro com o outro acontece mais precisamente em torno do enigma em que se constitui para o sujeito o encontro com o desejo do outro, em outras palavras em qual lugar somos postos pelo e no desejo desse outro...
Busco com essas considerações oferecer um panorama sobre o papel desse outro na subjetivação do sujeito, porquanto penso ser fundamental abordarmos um pouco mais a importância do outro no psiquismo no que diz respeito a definirmos melhor a especificidade da solidão na vivência do pânico. Como assim?
Nossa formação enquanto humanos inseridos em um campo cultural é sustentada pelo que em psicanálise chamamos sistema de ideais. Por sua vez, o sistema de ideais é, por assim dizer, herdeiro de todo um campo de ação daquelas reminiscências que mencionamos acima, sendo portanto constituído em seu cerne pela presença do outro. Dessa forma o sistema de ideais é a marca, por aquela presença, da cultura no sujeito humano.
Em mais de uma vez, Freud nos diz da importância do investimento amoroso, em termos das condições de criação e sustentação da confiança do sujeito no outro e no mundo humano. O pânico nesse sentido se coloca no momento mesmo em que, por vários motivos, se rompem os campos de possibilidade de relações amorosas com o outro. As possibilidades e as formas de vínculo amoroso do sujeito são determinadas pelos fantasmas inconscientes que constituem o cerne do sistema de ideais, do que podemos depreender assim que as bases da vivência de pânico estejam em absoluta dependência da forma vigente de relação do sujeito com seu sistema de ideais.
Podemos imaginar a profunda importância psíquica do sistema de ideais enquanto, em sua ligação com a cultura, possa promover o encaminhamento das complexidades de nossa relação com nossos fantasmas. Do contrário, vislumbramos algo da angústia que pode nos inundar quando esse sistema tem problemas ao encaminhar pelas vias simbólicas da cultura o que nossos fantasmas fizeram de nós, nos levando a um encontro sem sua mediação eficaz com a experiência da impotência e do desamparo, solidão com toda a tonalidade de fragmentação e destruição de si.








Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
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07 de setembro
A SINGULARIDADE DE SI

A SINGULARIDADE DE SI


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES


Certamente das maiores tarefas decorrentes da condição humana é a da busca pelo sujeito daquilo que constitui sua singularidade. Principalmente em um campo cultural onde cada vez mais parecemos buscar em definições generalistas algo que nos possa servir de muleta de identificatória, algo que possa de alguma forma dizer quem somos.
Ocorre que na modernidade, em resposta ao enigma da pergunta sobre quem somos, encontramos uma imensidão de respostas que seriam muito mais afeitas ao que somos do que a quem somos.
Quando nasce, se assim podemos dizer, uma vaca sabe que é uma vaca. Nós, seres humanos, temos um grande trabalho na busca, e nessa busca a construção, de quem somos. No próprio caminho atrás de quem se é, vamos construindo essa resposta, na medida em que somos seres constituídos por e mergulhados em determinada cultura, concebida como conjunto simbólico absolutamente fundamental no que tange ao processo do tornar-se humano de cada um de nós, que a psicanálise chama processo de subjetivação.
Nesse caminho vamos encontrando possibilidades que se espera sejam sempre renováveis em termos das descrições sobre nós mesmos, descrições que se valem sempre do repertório simbólico disponibilizado pela cultura. As descrições que podemos fazer de nós mesmos expressam algo essencial, na medida em que são amostras instantâneas daquele momento do posicionamento do sujeito frente à sua própria história emocional.
Preocupa percebemos que no repertório atual da cultura figuram representações gerais do humano que nos apresentam como mero resultado de uma suposta maquinaria que se estaria em vias de esclarecer completamente os mecanismos; e uma vez isso feito seríamos seres em que o campo de mistérios sobre nossa existência seria dissipado... Afirmar que somos seres de mistério não é aqui uma apologia do desconhecimento e da ignorância. Trata-se de perceber que, como a psicanálise nos ensina, somos mais do que pensamos ser, marcando o fato que nosso psiquismo é dinâmico de modo que não podemos, a não ser à custa de uma psicopatologia, sustentarmos representações totais e últimas sobre o fomos, somos e podemos ser.
Podemos ver aqui uma das grandes contribuições psicanalíticas em torno do sofrimento humano. Não sofremos como resultado de um déficit seja ele hereditário, cognitivo, moral ou outro qualquer. Sofremos de nossas certezas..., paradoxalmente ainda mais acalentadas quanto mais o sofrimento nos colocar a tarefa de reconfigurar nossas descrições de nós mesmos, do mundo e do outro.
Enfim, sofremos como efeito das chantagens que inconscientemente fazemos conosco mesmo no sentido de abdicar da responsabilidade frente ao grande percurso em torno de nosso desejo, algo que marca nossa singularidade e que não é redutível a qualquer afirmação de si tendo como referencia representações generalistas às quais o sujeito busca aderir no sentido daquela abdicação. A psicanálise apontou assim a suprema importância desse percurso do sujeito em relação a si mesmo e de sua intransferibilidade a quem quer que seja.
A abdicação da busca da singularidade de si tem efeitos psíquicos amplos, dentre outros o congelamento do sujeito em uma posição frente sua história emocional que chamamos neurose, onde o que tentamos expurgar de nós mesmos sempre retorna pela porta dos fundos de nossos sintomas. Sofrimento do qual queremos nos livrar, mas que mantemos fortemente na medida em que é o pagamento que fazemos no sentido de não entrar em contato com os enigmas que nos constituem.
A neurose pode ser vista assim como o que colocamos no lugar da vivência possível de que somos mais do que pensamos ser e de que podemos, talvez, sofrer por algo novo, sofrimento desejado e sempre temido. Nossa neurose nos oferece o conforto de ser uma companheira de alguma forma já conhecida...






Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
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28 de agosto
SOBRE A TAL FELICIDADE...


SOBRE A TAL FELICIDADE...


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Estamos em um ambiente e em um momento cultural em que precisamos nos perguntar a respeito dos ideais de felicidade que hoje norteiam nossas buscas no mundo. Qual é hoje o papel do outro no que tange à busca da felicidade? Qual a imagem contemporânea sobre o que é a felicidade? Em torno de que as pessoas acreditam que deva estar o caminho para ela? Enfim, pelo que necessariamente a busca da felicidade passa aos olhos do sujeito?
Parece que nossos ideais de felicidade passam hoje fundamentalmente pelo que podemos chamar referentes do corpo. Com essa idéia aponto para o papel hegemônico que a imagem corporal passou a ter na constituição da identidade do sujeito humano na modernidade. Em outras palavras, a imagem corporal passou a condensar e monopolizar em si toda uma série de significações culturais que fazem como que o corpo seja visto como o passaporte social para algo de uma felicidade; mas qual? Qual o diferencial que hoje marca os ideais de felicidade em relação ao passado?
Penso que um elemento de importância ímpar difere a concepção em torno da felicidade em nossos dias. Trata-se do valor atual da presença do outro no que tange à busca da felicidade. A transcendência de si de alguma forma sempre marcou historicamente o que significava ser feliz, e o outro era visto como parte de uma relação posta como condição que levava a tal transcendência.
Em nossos dias observamos que o conjunto das mensagens passadas pela cultura e pelo mercado apostam sempre no caminho de levar o sujeito à crença de poder alcançar a tal felicidade às expensas de qualquer responsabilidade ligada a uma relação com o outro, privilegiando a via de uma relação com objetos de consumo que são vistos como potenciais caminhos para a felicidade. A relação com objetos de consumo propriamente ditos abordaremos em outra oportunidade.
O que é absolutamente inédito na cultura contemporânea é a tentativa de colocação da relação do sujeito com seu corpo como fazendo parte daquela relação com os objetos de consumo, de modo que o corpo passe a ser visto como um objeto sobre o qual recaia toda uma série de novas expectativas de satisfação sensorial.
Em contraste com os objetos de consumo, o corpo não pode se renovar infinitamente, ser adquirido sempre novamente, como ocorre na relação de consumo onde os objetos são necessariamente cada vez mais descartáveis, dentro da melhor lógica do mercado. No que tange ao corpo o que se aspira, na medida da impossibilidade de sua remoção enquanto objeto, é sempre a renovação do prazer sensorial que se expressa pela compulsão por frentes de estimulação que necessitam por definição ser sempre repostas.
Dessa forma presenciamos em vários aspectos da vida do sujeito um denominador comum que tem como marca algo de uma estimulação sensorial na qual o outro perdeu o valor de condição para a transcendência de si.
Assim, nos perguntamos no que o experimento cultural moderno de busca da felicidade pela via da renovação constante da estimulação sensorial implica para a presença do outro na vida do sujeito, presença essa que parece perder paulatinamente o estatuto que já possuiu nos ideais de felicidade dos sujeitos...
Será esse outro visto apenas como fonte de estimulação dentro do ideal de felicidade sensorial? Ou talvez possamos imaginar que o imprevisível das relações possam a cada um de nós, ao acenar com a possibilidade das surpresas que os encontros genuínos podem promover, nos levar ao ultrapassar de nossa neurose tão deplorada e ao mesmo tempo tão fortemente mantida.
Chegar ao ponto onde o que buscávamos e sofríamos já é buraco no tempo junto com o que ainda está por vir, que alguma coisa em mim parece saber que virá, é o ponto amoroso por excelência...



Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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A ANGÚSTIA NOSSA DE CADA DIA


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Parece que dentre o campo de afetos experimentados pelos sujeitos em nossa cultura, o medo tem certamente um lugar muito especial. O que condiciona a experiência afetiva do medo como a marca por excelência de nossa contemporaneidade?
O medo enquanto afeto humano tem uma importância fundamental em nossa vida, engatilhando respostas do organismo em termos do binômio luta ou fuga frente a perigos que envolvem riscos para a manutenção da integridade do sujeito. Se não tivéssemos medo este texto não teria sido escrito e muito menos lido. Eu e meu leitor com certeza já estaríamos mortos há muito tempo!
Assim, por exemplo, frente a um leão que se aproxima, toda uma ampla série de reações orgânicas tem início em resposta ao reconhecimento psíquico do perigo: pupilas se dilatam, aumento do tônus muscular, aumento da descarga de adrenalina, aumento dos batimentos cardíacos, dentre outros, no sentido de promover condições para a luta ou a fuga no intento de preservação de si e, biologicamente falando, da espécie. Ao conjunto das reações mencionadas nos referimos genericamente como estresse do organismo, que deve cessar em resposta ao desaparecimento do perigo reconhecido, trazendo as funções orgânicas ao seu ritmo anterior. Tudo estaria perfeito se as coisas se encaminhassem sempre dessa forma...
No entanto, no que tange a nós seres humanos, dotados de uma ampla história emocional, o medo em seu correlato de vivência de angústia responde a perigos não facilmente localizáveis, tais como a visão e reconhecimento do leão no exemplo anterior.
Nossa história emocional é constituída por uma imensa gama de vivências e experiências de lembranças articuladas em uma complexissíma trama de fantasias que passam a atravessar e constituir as relações que mantemos com nosso mundo interno e externo, unindo os objetos do mundo a todo um campo de significações internas ao sujeito.
Dessa forma os objetos do mundo podem ser inseridos em um campo inconsciente de fantasias que o investem de significação bastante diversa da que possuem na vida consciente do sujeito, de modo que podemos ter atitudes fóbicas frente a objetos que nossa consciência de outra forma desvalorizaria enquanto perigo. Isso acontece na medida em que nosso psiquismo inconsciente é uma teia de significações dinâmicas que pode transmitir aos objetos afetos referentes a outros lugares, por assim dizer, da história emocional do sujeito. Podemos assim acordar suando de angústia com a presença em nosso sonho de um inofensivo óculos de sol ou ter taquicardia quando a luz é apagada, ou acesa quem sabe...
Quem assistiu “Disque M para Matar”, de Alfred Hitchcock, percebe que os grandes diretores de cinema e autores da literatura se valem dessas propriedades do psiquismo humano quando conferem a qualquer objeto ou suposto pequeno detalhe um papel central na trama, um personagem; no caso do filme percebemos isso no movimento da câmera voltada a um simples telefone!
A relação com nosso Jurassic Park interno determina o campo de angústia que nos afeta. O psicanalista Jacques Lacan nos coloca que a angústia é um afeto de base, no sentido em que nela podem se transformar toda a gama de afetos que poderíamos ter sentido. Poderíamos...
A angústia se afigura assim como o afeto sentido pelo eu como um sinal de um perigo. Perigo que emana de uma certa relação neurótica com nossos fantasmas internos. Fantasmas que o eu é incapaz de fazer ceder em seus efeitos afetivos com argumentações a si mesmo em torno da bobagem de se sentir angústia frente a coisas tão supostamente bobas...
Angústia como alerta; antecipação sempre renovada de um perigo posto em objetos do mundo, ainda e sempre por vir. Fantasmas que nos habitam e não nos deixam dormir.
Sempre alertas, à espera de algo que pode voltar. Voltamos nós, em outro momento!






Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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15 de agosto
A CULTURA DO ENTORPECIMENTO


A CULTURA DO ENTORPECIMENTO


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Estamos nos defrontando hoje com um campo cultural que nos oferece mostras nos sujeitos de tendências psíquicas bastante preocupantes. Gostaria de apontar algo deste campo bem como de por onde penso estarem apontando, em termos de sofrimento psíquico, essas tendências.
Parece que estamos vivendo sob a égide do que podemos chamar de cultura do entorpecimento, sendo que o gigantismo da indústria montada com esse fim deixa com vergonha a das armas, do petróleo e outras mais. O empreendimento cultural entorpecedor compreende toda uma série de atividades culturais, cujo objetivo maior se situa na busca sempre renovada de criação nos sujeitos de uma crença em sua suposta incapacidade de intervenção no mundo. A resignação cínica, com seu correlato de futilidade da existência de si é o corolário da cultura do entorpecimento, que tem em uma certa neurose de domingo um bom representante...
O efeito psíquico da experiência de irrelevância de si é aqui absolutamente patente, trazendo nesse bojo toda uma lassidão da vontade, negligência em relação a si mesmo e patente descompromisso com o mundo, paralelo à idéia de que nada adianta, nos levando a uma postura de encolhimento em nosso estar no mundo, efeito criador da postura que já mencionei aqui como a “atitude de turista”, que vê o outro e o mundo como uma eventualidade, espetáculo que passa...
Dessa forma contamos com todo um arsenal que leva a tal objetivo, arsenal que inclui itens de consumo desenfreado na modernidade, tais como a adesividade a drogas legais e ilegais; programas midiáticos que fazem do terror do mundo mercadoria; próteses para o corpo cuja promessa de eternizacão, imobilidade de si no tempo e na vida não pode se cumprir; todo o conjunto do que venho apontando como o ideal de felicidade sensorial que marca nossos tempos, em que os sujeitos se perdem na busca insana de uma relação com o outro e com o corpo próprio marcada pela obsessividade da procura de uma estimulação que não pode cessar, na medida em que pela primeira vez fazemos o experimento social temerário de equalizar felicidade e prazer. Esquecemos assim que o prazer é fugidio em si mesmo, não podendo sustentar portanto qualquer projeto de felicidade, que em outros tempos sempre foi relacionado à presença e à busca de transcendência de si através da relação como o outro.
Na cultura do entorpecimento, os sujeitos se comportam sempre como credores do outro e do mundo. Eterno credor de um prazer que lhe é passado como de direito; se ainda não possui é porque alguém lhe negou...
Ficamos assim com a imagem de um sujeito submetido a uma lógica cultural onde parece crer que em algum lugar existe uma grande festa para a qual não foi convidado; que se souber e obedecer aos ditames que podem pavimentar o caminho que levam à chamada vida invejável, possa se oferecer ao imenso circuito das imagens sedutórias que constituem as últimas autoridades da modernidade, as celebridades, autoridade paradoxal na medida em que nada aquilo que constitui qualquer autoridade, uma certa autorização do passado. A celebrizacão moderna se constitui na negação mesma de qualquer tempo, de qualquer história, de qualquer passado ou imagem passível de ser elencada para o futuro.
Invejada na medida em que é imaginada como não passando pelas coisas desse mundo, a celebridade ocupa um lugar fundamental na cultura do entorpecimento, ícone buscado do que parecemos desejar, não estar mais no mundo. Estranho paradoxo, em que se buscam coisas desse mundo para não mais passar por ele...
Em outra oportunidade, discutiremos com mais vagar a presença do outro no ambiente da cultura do entorpecimento, na qual todos os elementos desejados o são na medida em que podem nos livrar dessa estranha presença, o outro em sua inapreensível diferença...





Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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12 de agosto
A ÂNSIA DE AMAR

A ÂNSIA DE AMAR


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Porque amar dá trabalho, como já se disse tanto? Será que não conseguimos, também no amor, dar um jeitinho?... Parece que ele nos implica de todo, fazendo com que o que mais sonhamos obter por sua via possa, em um instante, se tornar um mar de tormentos e ansiedades que nos paralisam.
Porque algo que imaginamos tão bom pode afligir tanto?
Talvez algumas significações possíveis para a palavra ansiedade possam pavimentar um pouco o caminho de nossa reflexão.
Podemos pensar em ansiedade no sentido de um “ansiar por algo”, buscar algo na relação com alguém. Podemos também lembrar um outro sentido na raiz da palavra ansiedade, que é a “ânsia de algo”, o que nos causa uma espécie de reação de repulsa e expulsão.
Se esses dois sentidos da palavra possam parecer antagônicos, no que diz respeito à sua dimensão semântica, podemos suspeitar certamente que no que tange à experiência amorosa tais antagonismos são vividos de maneira bastante ambígua.
De fato, na medida em que no amor o conjunto de mitos que fundam nossa subjetividade se repõe na relação com o outro amado, o que se coloca para o amante é o enfrentamento, no acontecer da experiência amorosa, de toda uma gama de conflitos, impasses, frustrações, buscas, expectativas, dentre muitas outras experiências psíquicas de si. No amor, o si-mesmo se desconhece, para no encontro com a diferença do outro amado vir a descobrir e realizar outras dimensões de si.
Esta experiência não se dá sem conflitos, porque a experiência de aspectos de si desconhecidos no acontecer do amor coloca as certezas do sujeito sobre si-mesmo em jogo. Assim, amar é um exercício de colocar em suspenso muitas de nossas crenças narcísicas sobre nós mesmos, pela promessa de descobrir e experimentar outras “coisas” de si que podem oferecer novos amparos para nossa imagem própria...
No amor, desta forma, podemos nos defrontar com aspectos que nos causam ânsia, que buscamos não reconhecer como nossos, expulsar de nossa responsabilização, no exercício máximo do aprendizado de si que é a sustentação do enigma que é sempre nosso “si-mesmo”, posto pela relação amante-amado.
O que mais ansiamos por, o que mais buscamos viver, o amor, pode ser assim também o passaporte para o enfrentamento do que não nos permite suportar sua própria realização, nossa incapacidade de suportar o enigma do que nos constitui enquanto sujeitos humanos, qual seja nossa diferença intrínseca em relação a nós mesmos.
Suportar disparidades em si, de si, faculta ao amante a experiência do que o romance de Milan Kundera coloca como a insustentável leveza do ser, leveza que pesa, porque não passível de ser circunscrita e delimitada em certezas de si.
Você está à altura dos seus sonhos de amor? Pode suportar as questões que ele coloca sobre si, na vivência dos enigmas de si, pela incapacidade de obter respostas que te ofereçam pilares sólidos que possam esgotar o que pode ver de si e garantam sua tranqüilidade?




Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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30 de julho
DO QUE PENSAMOS SER...


DO QUE PENSAMOS SER...


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Com que facilidade ouvimos, desde há algum tempo, as pessoas se definirem rapidamente como depressivas. A depressão passou a ser um cacoete de definição identificatória de si como não víamos há tempos. É impressionante a tendência a encontrar uma suposta rotulagem “científica” a dar algum abrigo ao mar revolto de nossa subjetividade, ao fato psíquico que me parece ser das grandezas que a psicanálise nos mostrou e legou, a idéia de que somos mais do que pensamos ser...
Candidamente buscamos que alguém nos diga que não estamos somente tristes, fato inadmissível em nossa cultura moderna, subjetivo demais estar triste hoje...; precisamos sem dúvida ter à mão alguma patologia que melhor nos posicione no circo dos horrores classificatórios nos quais possamos acreditar poder nos apresentar melhor ao outro!
Que bom que o senhor me disse que sou depressiva, ainda bem que alguém sabe quem (ou o que?) eu sou. Não me diga?! Quer dizer que é uma doença biológica; que eu não tenho nada a ver com isso; que existe um remédio para o que eu sou?
A busca moderna de uma posição que me garanta uma dose de irresponsabilidade autorizada sobre quem sou marca nossa cultura, de uma forma que faz com que as pessoas acreditem que em algum lugar exista uma resposta última sobre quem sou, sobre o que vivo e sinto, sobre o que já fui e posso ser.
Anseio pelo definitivo, imensa aversão à idéia de uma auto-descoberta, da responsabilidade pessoal por um trajeto de encontros e desencontros com sua própria subjetividade, com experiências de uma série de paradoxos, diferenças e incoerências em relação à imagem concebida de si – mesmo. Parece que no esforço de responder quem somos vamos formulando respostas em torno do que somos...
A psicanálise, dentre muitas de suas contribuições ao conhecimento do psiquismo humano, aponta em sua teoria da constituição do sujeito o papel fundamental das identificações em nosso vir a ser. Diz-nos de nosso sofrimento; que sofremos no lugar do outro; que nossa vida emocional é balizada por essa presença mostrando como pela via das identificações somos, por estranho que pareça, tributários de uma herança que cobra seu preço em um certo peso do existir que temos dificuldade de localizar em nossa experiência consciente...
A psicanálise nos aponta assim que nossa vida emocional remonta suas raízes para além do que podemos reconhecer como pessoal, em uma história que nos ultrapassa e define, história de nossa inserção em um campo de desejos que nos simboliza, posiciona, e também por vezes captura...
A importância atual do que a psicanálise sempre marcou me parece absolutamente fundamental, na medida em que na modernidade parecemos ter nos demitido de qualquer tarefa de estabelecer relações de nossa vida emocional a algo de uma história. História que se põe na vida do sujeito pela via de suas identificações, por um tomar algo do outro para si, algo que irá conformar um certo modo de sentir e sofrer; por um tomai e comei!
Em tempos onde a tarefa intransferível de construção de novas possibilidades de produção de novos sentidos para a vida é rapidamente substituída pela adesão a uma classificação psicopatológica que disso nos libere; em que acreditamos poder dizer quem somos a partir do que somos, a psicanálise aposta em outro caminho.
No caminho de afirmar que somos seres de paixão, habitados por toda uma fantasmagoria legada por uma história que se põe e se atualiza em nossas relações com o outro e o mundo. Seres épicos em que a mudez grita; em que o movimento das pálpebras melancólicas repõem esperanças e frustrações passadas, passado não passado...
Na paródia de João Guimarães Rosa, na esteira dos cadáveres adiados que procriam, somos seres que sofremos de uma história do futuro, do que poderíamos ter sido; não pensado. Talvez ainda possamos...


Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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19 de julho
O OCASO DO BEM COMUM
O OCASO DO BEM COMUM


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Parece que estamos vivendo o ocaso da idéia de bem comum que sempre definiu, desde a antiguidade, a prática política na polis grega. A idéia de bem comum presumia que os assuntos humanos a todos concernentes fossem tratados desde uma perspectiva de futuro que garantisse a preservação do que naquela civilização fosse apreciado como o que de melhor devesse continuar existindo na história.
Dentro da filosofia política essa idéia exigia dos chamados cidadãos livres que se lançassem ao espaço público desembaraçados dos afazeres relacionados ao campo da necessidade, da manutenção da vida biológica, da reprodução da existência física. A vida política pressupunha uma transcendência da necessidade em busca de um lugar no mundo marcado pela idéia de liberdade, buscada na constituição daquele espaço público onde o encontro entre os homens pudesse vir a demarcar o que pudesse ser criado e valorizado como bem comum. Quando nos referimos à bem comum, dizemos de algo que possa se colocar como uma espécie de farol sinalizador de valores e aspirações culturais da sociedade, para além do campo das diferenças entre grupos e indivíduos que sempre marcam a vida social.
Buscar a constituição do conteúdo específico do que possa ser bem comum a uma dada sociedade é certamente das maiores tarefas da vida política, tarefa que parece abandonada no que percebemos da cultura política no Brasil.
A prática política nos parece cada vez mais caracterizada por vários aspectos, que apontam contra a constituição de uma nação, no sentido lato do termo, construção que pressupõe a existência e eficácia de instrumentos e instituições que, em última instancia, têm seu sentido maior na tarefa de proteger o conjunto do ideário relacionado ao bem comum. Em nossa sociedade, esse ideário é formado historicamente pelos valores republicanos e democráticos.
A defesa desse ideário não tem encontrado respaldo no funcionamento institucional brasileiro, conspurcado por uma prática política marcada pela ausência de um fazer direcionado pela idéia de bem comum e prenhe de ações de grupos políticos, em sua relação com setores da sociedade civil, que certamente possuem em sua relação com o Estado brasileiro uma postura predatória, no sentido de concebê-lo como uma espécie de “doador universal”; mãe sem fim que os abastece do leite que o capitalismo sem risco brasileiro inventou de modo inédito no mundo.
Consternados, os cidadãos que ainda não se renderam ao completo cinismo que assola a vida política e sua relação com a sociedade, se perguntam sobre um sentimento de orfandade e superfluidade na relação com o país, na medida que percebem que alguns rompem o pacto, o tácito pacto da abdicação de imaginar algo diferente de um gozo de si. Imaginar ainda poder acreditar na capacidade da vontade humana de intervenção, fazer alguma diferença...
Parece que passamos a acreditar que o país está entregue à gentalha política; que não podemos fazer qualquer diferença; que devemos, de toda forma, pensar que todos somos estúpidos e descartáveis, na medida em que não fomos convidados para a grande festa dos que abandonaram sua tarefa com o país; dos que desejam mas ainda não entraram na grande festa do poder. O futuro talvez nos reserve uma câmera que defina nosso futuro, nossa esperada participação no butim...
Acredito que precisamos nos colocar de uma forma que não pressuponha o que em outro artigo chamei de moral do espetáculo, que consiste em acreditarmos que algum dia, em um futuro em que não podemos saber qual será, estaremos aqui; que o mundo pode nos esperar, que a vida terá um segundo tempo e poderá nos aguardar.
A moral do espetáculo nos coloca na posição de um turista descomprometido no mundo. Alguém irá chorar por nós. Apenas não sabemos quem e pelo que. O que importa, ainda?...


Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomática@gmail.com
nucleotavola@gmail.com






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08 de julho
A MORAL DO ESPETÁCULO
A MORAL DO ESPETÁCULO


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Temos presenciado toda uma série de fenômenos na modernidade que, sem dúvida, merecem nossa maior consideração na medida em que apontam para questões espinhosas e preocupantes, sob o prisma do que podemos dizer de nossos ideais hoje e suas relações e mudanças em relação a uma tradição.
O conjunto do que chamamos tradição nos remete a uma idéia de autoridade conferida pelo passado. A autoridade sempre teve o papel, por assim dizer, de uma ponte do passado em relação ao presente, tendo sido sempre investida de expectativas relacionadas a seu poder em oferecer às novas gerações luz frente à imprevisibilidade do futuro.
A relação da autoridade com o passado e suas possibilidades de informar o futuro nos leva a perguntar a respeito do que presenciamos desde há algumas décadas sobre seu papel na atualidade. De que forma e como ela hoje subsiste? Como podemos circunscrever sua presença e atuação?
Ouvimos comentários sobre como a autoridade teria acabado; sobre como nos tempos atuais não temos mais o que possa nos guiar; sobre certa nostalgia de tempos onde supostamente o mundo ainda não tinha se perdido...
Penso que os nichos onde a autoridade no passado encontrava seu lugar, qual sejam, pais, família, religião, dentre outros mais, foram sendo deslocados em sua presença de autoridade frente ao sujeito, sendo que outros foram historicamente sendo postos como discursos de autoridade. Espero, em outro momento, poder me deter com mais vagar nessa mudança e o que a condicionou. Para os propósitos do assunto a que hoje me atenho marcar tal mudança nos nichos da autoridade é suficiente.
A mídia tem hoje, dentre outros agentes sociais, um grande papel no campo da autoridade que outrora foi conferido àquelas instituições. No entanto, o que se põe como autoridade aqui tem uma qualidade bastante diferente do que nos referimos anteriormente como ponte, no presente, entre o passado e o futuro.
No corpo midiático, temos o ícone maior do que podemos chamar autoridade moderna, a figura da chamada celebridade. Correndo em paralelo com o que podemos chamar de moral do espetáculo, em sua apresentação do mundo como um conjunto de imagens fragmentárias sem maior relação interna, e da vida como entretenimento, situando o sujeito como “”turista de passagem”, sem comprometimento com uma realidade que ele já não consegue apreender, tal figura encarna uma figura de autoridade absolutamente diversa do que constituiu a definição de autoridade colocada acima, no movimento mesmo em que as celebridades formadas pela moral do espetáculo tem data de validade posta de antemão, validade essa sempre precária, sem a menor pretensão de cumprir o que as figuras de autoridade outrora sempre cumpriram.
Quem ainda não foi cooptado pelo cinismo que sustenta a moral do espetáculo e ainda tem um pouco de paciência para ouvir o que tais celebridades têm a nos dizer fica certamente com uma estranha impressão, ou seja, a pergunta de porque se dá tanto espaço midiático a quem, ou o que, nada nos tem a dizer...
Os sentimentos de inveja e desprezo pelas celebridades nos mostra o conflito psíquico dos sujeitos modernos, encarnando internamente os paradoxos da moral do espetáculo, que acabam nos levando a buscar em figuras da publicidade algo do que só podemos encontrar no encontro com o outro, outro próximo esse que acaba sendo desvalorizado como interlocutor emocional na comparação com a celebridade distante que a nós somente se dirige quando se trata de vender alguma coisa!
Vender assim a idéia da ética moderna, se assim a podemos chamar, de que o sucesso hoje é absolutamente desvinculado do trabalho, e que com alguma sorte uma câmera em algum lugar pode te mudar o destino... Voltamos em outro momento, com Jankelévich, lembrando que o tempo nunca dá, somente empresta!



Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
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A DOR: PRESENCA E PAPEL NO PSIQUISMO HUMANO
A DOR: PRESENCA E PAPEL NO PSIQUISMO HUMANO


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES


Falar sobre a dor, circunscrever sua presença e importância na dinâmica psíquica humana não é tarefa das mais fáceis, pelo paradoxo de que os campos de dor implicam certa impossibilidade de se falar sobre eles, na medida em que implicam um certo refluxo narcísico do sujeito, paralelo ao cuidado com a ferida que nos faz procurar com que nada a atinja. Assim, tudo se passa como se aquilo que nos fizesse precisar gritar também nos impedisse...
Com a idéia de refluxo narcísico me refiro ao aspecto de impossibilidade de busca desejante em relação ao mundo posto pela dor. Ela impõe uma inflexão do desejo rumo a uma espécie de restauração de algo, apagar o tempo e figurar a experiência de uma eternizacão nostálgica de um lugar anterior ao suposto dano que nos separou de tal estado.
O desejo, enquanto lógica / matriz interna das emoções do sujeito humano constitui, no mesmo movimento sempre renovado, representações de si e do outro, dos objetos no mundo. Dessa forma, a busca desejante tem sempre o caráter de elaboração e mitigação do que em psicanálise é concebido sob o conceito de luto primordial. Ao que se refere, em última instância tal conceito?
À impossibilidade de uma fusão do sujeito com uma imagem de si-mesmo. O luto primordial aponta para o momento fundante da dinâmica do desejo humano e seu direcionamento na busca de relações com o outro, na medida mesmo em que a perda a que o luto se refere é a perda de si-mesmo.
Podemos vislumbrar aqui a profunda importância psíquica da presença do outro para o sujeito humano. Por sua via o movimento do desejo sempre aposta em uma elaboração do luto primordial, marca e dor constituinte da fresta entre nós e nós mesmos... Assim começamos a perceber a presença da dor no núcleo mesmo dos andaimes que constroem o edifício singularíssimo da subjetividade de cada um de nós.
Na experiência da vida bem como também no percurso psicanalítico, a consciência experimenta algo daquela impossibilidade; enquanto consciência atravessada pelo desejo sob a forma de todo um roteiro específico e repetitivo de emoções, bem como enquanto consciência que busca apreender algo de si, enquanto objeto a ser refletido.
Com essas considerações, procuro apontar para o fato da dor como elemento estruturante e não apenas eventual na vida psíquica, condição fundamental do aparecimento do sujeito como ser desejante.
A escritora dinamarquesa Karen Blixen, em uma frase lapidar, aponta para os efeitos que buscamos na psicanálise em termos do encaminhamento simbólico da dor: “Todas as dores são suportáveis quando podemos contar sobre elas uma estória”. Podemos então nos perguntar o que opera no sentido de uma dor que imobiliza e congela o sujeito, que traz um profundo refluxo narcísico do desejo para sua órbita, tirando sua apetência em direção ao outro e ao mundo.
O paradoxo da ação da dor psíquica começa a ficar mais claro se marcarmos dois aspectos de sua presença: marca da uma perda fusional imaginária de um lugar, perda que instaura a busca pelo outro, marca de uma falta, fissura em nossa relação conosco mesmo; enquanto marca desse luto cria um campo gravitacional para onde tende a retornar o desejo em suas reiteradas tentativas de restauração daquele lugar fusional.
A forma poética que nos diz da “dor e delícia de ser o que é” ilustra muito desse paradoxo; a atração que a dor exerce sobre o desejo de restauração narcísica de si...
A possibilidade de encaminhamento simbólico da dor é fundamental no sentido de não permitir o congelamento do sujeito em seu campo. Nesse processo a experiência com o outro tem, como disse, a marca de repetição e tentativa de mitigar algo de um luto estrutural. Tal encaminhamento decide sobre a perspectiva sintomática do sujeito na tentativa de lutar contra a dor, sintomas cujos sentidos o conjunto dos estudos em psicossomática procuram mapear.
Em um campo cultural contemporâneo onde percebemos dificuldades importantes, no que tange ao oferecimento de espaços que suportem a singularidade do sujeito, não nos devem surpreender as respostas em termos de sofrimentos mudos, que fazem do corpo depositário de seus impasses abafados. Nesse mesmo campo temos a busca desenfreada de descrições generalizadas de si pelos sujeitos, que candidamente se alienam em qualquer imagem de normatividade que se lhes ofereça e que lhes acene com a promessa de que tem um saber pronto sobre ele em algum lugar.
Faz-se assim a abdicação da tarefa intransferível de enfrentamento de nossos enigmas, com o custo da concepção pelos sujeitos de suas dores como azares vindos de Marte, para as quais há sem dúvida algum remédio pronto e que os convença de que não tem nenhuma responsabilidade sobre isso, em suma sobre sua vida e como ele nela se põe.
Sobre o que aqui pudemos marcar sobre a dor psíquica apenas mais uma palavra. O vínculo amoroso se apresenta como a arena por excelência através da qual todo um conjunto de dramas que nos habitam se põem na relação com um outro amado, dramas esses que articulam nossas dores dando a elas um campo simbólico que engloba a figura amada, que é sem dúvida, a marca do amor, lembrança em ato...Tentativa, pela via do objeto, de repetição e redenção da dor.






Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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A CULTURA DAS SENSACÕES
A CULTURA DAS SENSACÕES


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

No final do século 19, auge do romantismo amoroso, podemos ter a oportunidade de visualizar um pouco do que sem dúvida pode ser denominado como cultura do intimismo sentimental. No que se constituía tal cultura? Na idéia fundamental de valorização do campo dos sentimentos humanos, sentimentos esses que para existirem exigiriam uma ampla disciplina dos sujeitos, no que tange primordialmente ao adestramento do que era representado pelo suposto perigo do império dos sentidos, do campo dos instintos, do demônio interno, das sensações corpóreas menos “nobres”.
Sensações essas que, em última instância, deveriam ser de muitas formas drenadas para alimentar muitos dos ideários da época, principalmente em torno dos sentimentos, da arte, da ciência, enfim todo um conjunto de atividades que Sigmund Freud, fundador da psicanálise, passou a pensar sob o conceito de sublimação, onde a sexualidade seria posta a serviço de outros encaminhamentos, culturalmente aceitos, onde se colocar e se expressar.
Norbert Elias e Peter Gay, dois grandes autores que buscaram mapear em seus estudos algo do que constituía o esforço cultural romântico, no sentido de transformar o chamado homem “bruto” no civilizado burguês europeu que marca os grandes romances da época, figurando o homem atormentado em uma trama emocional conflitiva interior, sacralizada, que seduzia os leitores que encontravam nesse imaginário um pouco de sua própria história, ou do que ela poderia ter sido, sendo contada. Contada de uma forma que não os comprometesse, na medida em que no romantismo amoroso uma certa clandestinidade do que se vivia internamente era a condição sem a qual a aura de mistério sobre os poderes do amor e do desejo não poderia existir...
O Romantismo, em sua valorização das paixões constituintes do sujeito humano foi sem dúvida um dos pais da psicanálise, que teve dentre outros progenitores históricos o Iluminismo, em sua busca de uma Razão que nos desse o esclarecimento do que nos ocorre. A psicanálise é feita de paradoxos desde o berço, e isso também a marca em termos de sua grandeza.
À cultura romântica sentimental podemos hoje contrapor o que devemos, por suas particularidades, denominar cultura das sensações, designando toda uma sorte de fenômenos da modernidade que possuem a peculiaridade de buscar marcar o corpo como principal referente do processo de tornar-se humano. Em outras palavras, centrando no corpo o que nos faz humanos a cultura das sensações também aponta para o que nele pode nos retirar tal estatuto, fazendo com que muitos dos sofrimentos psíquicos hoje tenham na representação psíquica do corpo sua principal fonte, corpo esse não mais inocentado como na recomendação da psicanalista francesa Piera Aulagnier, mas como ameaça sempre persecutória aos sujeitos.
A dinâmica das sensações parece prover um campo de experiência aos sujeitos hoje não mais atrelada à busca cultural romântica do advir do sujeito dos sentimentos em sua relação com o outro, mas pelo contrário, prometer que não precisaremos mais de tal presença.
Hoje, podemos ser moralmente tolerantes com as pequenas faltas; perdulários em relação à construção de ideais que nos norteiem em nossa relação com o mundo e a vida em sua imprevisibilidade; podemos achar que certos meios possam de qualquer forma justificar certos fins; acreditar que um mal necessário seja sempre necessário; que tudo isso é absolutamente aceitável desde que nosso mapeamento obsessivo dos metabolismos corporais se mantenha intacto em sua disciplina e a taxa de colesterol não se desequilibre!
Acreditamos assim que o máximo a que devemos aspirar seja algo da ordem de um conjunto de receitas de bem-estar corporal que possam prometer, sob a idéia de qualidade de vida, o encontro com o sentido de si. Será?..


Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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O DEMÔNIO DO MEIO-DIA OU UM OUTRO AMANHECER
O DEMÔNIO DO MEIO-DIA OU UM OUTRO AMANHECER?


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES


AO PSICANALISTA RENATO MEZAN, POR TUDO...

A depressão vem se constituindo, há alguns anos, em preocupação importante na experiência clinica psicanalítica e de outros profissionais ligados ao campo da saúde mental. Parece-me importante nos perguntarmos sobre o que passou historicamente a constituir o fundamento dessa preocupação, em relação ao que percebemos concomitantemente ocorrendo na cultura contemporânea.
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, em seu texto “Luto e Melancolia”, buscando especificar as condições psíquicas da depressão, aponta a relação com a perda, presente também no luto. No que ele acreditava residir a diferença entre o luto e a melancolia, hoje denominada depressão?
Nesse texto Freud nos mostra o papel da culpabilidade em torno da perda como diferencial para o sujeito no que diz respeito à sua entrada na vivência depressiva. A culpabilidade tem uma pregnância na vida moderna que, sem dúvida, merece uma maior consideração, na medida em que parece ser também uma forma de memória, um tributo pago pelo sujeito a um passado que não mais pode ser recuperado, nem modificado...
Qual é a busca nostálgica em relação ao tempo embutida na depressão? Como esse tempo ainda nos habita? A que lugar aspira o depressivo? O que parece impossível hoje continuar? Que solidão abissal é essa?...
Solidão derivada da busca de um encontro impossível. Impossível que é a tentativa de fundir-se consigo mesmo, tamponar a dificuldade posta pela fratura de nossa imagem conosco mesmo. A depressão paga o preço do sofrimento psicopatológico de uma aposta do sujeito em lugar onde o conflito não exista, lugar onde não se ponha a lembrança de uma dor sem nome, que acabamos por reencontrar de uma forma tortuosa na descrença na vida e seu porvir imprevisível.
Demônio do meio-dia, no dizer de um autor que relata sua experiência frente ao abismo da angústia inominável, procurando dizer das trevas a sol aberto, a depressão em sua dinâmica mostra muito mais em cada um de nós no que diz respeito a tentativas frustradas em buscar em cada experiência de vida uma reprodução, em legenda, do que parecemos ter perdido. Perdido esse, é preciso dizer, que jamais vivemos ou tivemos, nostalgia que nos mata, de um nada que nos acena com uma plenitude que nossa vida, essa pobre coitada, não pode nos compensar. Triste sina ser desejante, ser humano, chegando a desejar não mais desejar!
Frente à tarefa de uma vida que, em relação ao imprevisível de um futuro em que somente nossa possibilidade de uma singularidade pode apostar, perguntamos-nos com que facilidade as pessoas, hoje, se denominam depressivas. O que as motiva a se descreverem sem maiores questionamentos como depressivas, em uma tentativa de filiação de pertinência a qualquer coisa que seja, qualquer discurso que supostamente as defina? Com que facilidade a busca de uma generalidade “científica” a que se aliar para fazer sumir algo de sua singularidade? O que faz com que seja hoje indiferente se, em resposta a uma busca por uma filiação, seja a definição de si posta em alguma entrada em algum manual psicopatológico algo de um alívio?..
Que outro amanhecer pode ser possível em um mundo onde a definição de si como depressivo parece exercer uma atração decisiva aos sujeitos; em um mundo onde não encontramos por onde nos fazer chegar ao outro que não seja pela via de uma generalidade psicopatológica, onde nossa subjetividade somente possa se dar pela via de sintomas que, em última instância, operam no sentido de nos separar do mundo e do outro...
Podemos ainda esperar alguma coisa que não seja a sensação mortífera de sempre esperar? Esperamos talvez ainda poder acreditar que esperar possa ter um sentido assimilado a um tentar, apostar, significado maior da palavra esperança...




Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
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03 de junho
DO AMOR E SEUS DESTINOS 1
DO AMOR E SEUS DESTINOS (1)


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Amar dá trabalho...
É sobre o amor e sua importância na fundação do psiquismo humano que vou buscar explicitar, e também implicar, nos implicar...
Podemos ver quão potente se tornou ao sujeito contemporâneo o imaginário em torno do amor romântico. Aqui, vou buscar ressaltar as condições culturais e históricas que constituíram a apreensão contemporânea do ideal do amor romântico e seu valor no campo de ideais do sujeito.
Quando aponto condições culturais e históricas da vivência do amor, busco marcar a existência de certas concepções essencialistas do amor, que o concebem como algo cuja vivência e importância psíquica e social seriam invariáveis e iguais a si mesmas. A História, a Antropologia Cultural, a Filosofia, a Literatura e a Psicanálise, para ficar por aqui, mostram que o amor e seu papel na subjetividade humana variaram imensamente ao longo da história.
Para fazermos um paralelo rápido, imaginemo-nos dizendo a um homem livre na polis grega 2.500 anos atrás, que a grande experiência de êxtase atingível seria a recomendada pelos poetas românticos do século 19, de que morrer pelo amor a uma mulher tem um quê do inefável prazer da fumaça que sai do cachimbo...Ele certamente rolaria de rir, nos dizendo que as mulheres, os escravos e os animais pertencem à ordem da necessidade e não à ordem da liberdade à qual ele pertence. Na Grécia, a ética pederasta era o auge da apreensão subjetiva do amor pelos homens livres.
Apenas uma comparação histórica rápida para dar uma idéia do que procuro mostrar. Em outras oportunidades, espero poder olhar de forma mais acurada para a especificidade das vivências amorosas ao longo de determinadas épocas históricas. Por hoje, esta comparação é suficiente para nos instigar a pensar em torno de quais condições o amor passou a ter a importância psíquica que tem hoje e qual é ela.
Como podemos circunscrever esta importância?
No projeto de uma série de conferências que promovo há um ano, chamado “Senso e Contra Senso da Revolta”, venho apresentando o fenômeno do rebaixamento do valor dos ideais na contemporaneidade, me referindo à perda do conjunto de investimentos afetivos em ideais que, no processo de sua construção, possam oferecer possibilidades de novos sentidos para a vida. Levanto a hipótese - e vou buscar mostrar aqui em outros artigos as mediações – que tal rebaixamento vem sendo há tempos concomitante a uma substituição que podemos colocar sob a expressão: “Não sonhe nada! Nós sonhamos por você. Seu sonho está pronto, aqui, neste objeto de consumo que te oferecemos”.
Parece que fomos sendo paulatinamente convencidos a substituir a árdua e grande tarefa de constituir e sustentar nossas relações com um campo de ideais pelo apelo ao pronto do objeto de consumo. O objeto aparece assim como garantindo minha pertinência frente ao olhar do outro, olhar que estrutura a relação que tenho comigo mesmo.
Se tomarmos o conteúdo dessa diretiva acima e levando em conta o que nos ensina a psicanálise, no que tange à importância fundacional da relação com o outro e seu olhar no processo de constituição da subjetividade, podemos perceber algo do paradoxo moderno na relação dos sujeitos com o ideal do amor romântico:
“Quero muito amar, parece a redenção para mim, já que mostra ser o único ideal em que tenho que me implicar sem comprar, que o consumo já não cumpre sua promessa, mas será que consigo sendo que no amor o outro precisa existir, também no seu potencial de me fazer sofrer. Quero café descafeinado, chocolate laxante, amor sem sofrimento. Em que balcão está?”



Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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O OUTRO E O DESÂMPARO CONTEMPORÂNEO
O OUTRO E O DESAMPARO CONTEMPORÂNEO


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

A cultura contemporânea apresenta traços marcantes e preocupantes no que diz respeito à presença e importância do outro na experiência do sujeito. Tenho me referido a tal fenômeno como o rebaixamento do valor do que uma relação com o outro possui, em termos das possibilidades que oferece a quem a ela se propõe no que tange ao repetir e ultrapassar fantasmas e impasses emocionais que nos habitam.
Parece, no entanto, que se propor a ela está cada vez mais complicado. O que está acontecendo, nos acontecendo?...
A modernidade fez uma aposta e uma reviravolta cultural ampla quando, ao propor aos sujeitos que se reinventem por si mesmos, sem garantias de uma tradição que os defina na representação de sua identidade, não mais avaliza como válidas referências últimas daquela identidade que se remetam à linhagem, família, clã, ou algo qualquer dessa ordem.
Somos hoje sempre acompanhados pela angústia decorrente dessa aposta em um porvir, que de modo intransferível nos implica, e que não podemos delegar a ninguém apesar de nossas muitas tentativas nesse sentido... Desse modo, propõe nossa implicação na construção sempre renovada de novas relações que permitam novas experiências de si e possam permitir novas apreensões sobre o que fomos e somos, podemos ou poderíamos ter sido. A importância fundamental do outro se mostra aqui de forma cabal.
No entanto, algo de uma desvalorização constante dessa importância vem se operando na cultura contemporânea, sob os auspícios de uma crença cada vez mais intensificada na idéia de que relações com objetos de consumo podem bastar, eles que nos prometem a garantia de quem somos na medida em que podemos possuí-los...
Que espécie de relação podemos ter com objetos de consumo? Seriam da mesma ordem das relações possíveis com um outro, humano?
Parecemos de muitas formas acreditar que sim, infelizmente, porque os objetos nos acenam com a promessa de garantia de nossa pertença, por sua via, frente ao olhar e reconhecimento do outro. O que de melhor o outro pode nos ofertar com sua presença fica assim ofuscado frente àquela garantia que o objeto nos promete sobre quem somos, ou seja, ficamos privados da experiência de imprevisibilidade que o desejo do outro sobre nós sempre proporciona. Todo o diferencial da relação com o outro se mostra aqui; objetos não nos desejam, apenas se mostram como figurações acabadas de nosso desejo, como se nossos desejos já tivessem um desenho pronto que algo pudesse completar...
Este ponto é fundamental. Nossa dinâmica de desejos é isso mesmo, por óbvio que pareça, uma dinâmica! Isso significa que não está pronta e posta de modo inequívoco, mas sim que se articula e rearticula em função de enigmas, desafios e impasses postos através de nossa relação com o mundo, com o outro e algo do outro que objeto algum possui, seu desejo sobre nós...
Assim, temos como correlato ao desaparecimento do outro enquanto promessa de transcendência de si o aparecimento dos objetos, que se põem como alvo que supostamente desejamos ou deveríamos desejar.
Ocorre que os objetos se põem em uma experiência que não mostra o sujeito como desejante enquanto tal, mas sim como alguma coisa que faria o desejo sumir, desaparecer, satisfeito...
A mística em torno dos objetos diz respeito a algo mais radical. Acena com a satisfação de um desejo muito específico, um desejo de não desejar, modelo de uma normalidade a que deveríamos...desejar?!
A vivência de desamparo tão comum hoje tem seu correlato emocional na angústia frente ao infinito de um nada, nada resultante da busca de uma completude pela via do objeto, objeto a que o outro também acaba por se transformar, na medida em que buscamos nele algo hoje predeterminado pelo desejo de não mais desejar... Como lidar com um outro que possa ter desejos que nos impliquem?





Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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DO AMOR E SEUS DESTINOS (5)


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Vínhamos nos perguntando sobre o valor psíquico contemporâneo do sofrimento e relacionando esta questão com algo que nos preocupa hoje, no que tange à possibilidade de encaminhamento simbólico das experiências de si na relação com o outro e o mundo. Encaminhar simbolicamente nossos afetos, de uma maneira geral, diz respeito ao campo virtual de possíveis associações psíquicas em que as experiências na vida são postas em relação a uma história emocional do sujeito humano.
Tais associações nunca são previsíveis ao sujeito, não sendo condicionadas por sua vontade consciente, mas articuladas entre si pela imensa complexidade de significações que constituem o que a psicanálise conceitua como o inconsciente humano. O sofrer não diz respeito a uma suposta falta de algo que, uma vez que o possuíssemos estaríamos imunes a esta vivência, mas sim, como apontado no artigo anterior, a uma espécie de tributo a uma história emocional que desconhecemos.
História essa sempre condicionada e habitada pela presença do outro, sendo constituída pelo conjunto de nossas respostas a enigmas inconscientes em torno do lugar em que o desejo do outro nos coloca. O lugar no desejo do outro nos marca, de modo indelével, criando na dinâmica frente a esse enigma o arcabouço de nosso posicionamento frente à experiência amorosa e, no que importa ao tema que aqui abordamos, o valor psíquico singular de nosso sofrimento no que ele se refere ao outro que nos habita.
Na psicanálise, neste sentido, o sofrimento amoroso se mostra sempre referido a um destinatário interno que integra nossa história emocional, articulando nosso sofrer ao outro, seu desejo e seus impasses ambíguos, dando uma dimensão de importância impar, em termos do que ele nos diz a respeito daquela história e do peso que por ela, e no lugar dela, carregamos... Podemos assim, a partir dos elementos postos pela psicanálise em termos do valor psíquico do sofrimento e sua relação com nossa história, ou melhor, ainda, de algo dela que pode vir a ser nosso, pensar algo do ocorre com o papel do sofrimento ao sujeito contemporâneo.
Estamos assistindo, há algumas décadas, ao processo de implantação de uma concepção cultural do valor do sofrimento na vida humana que busca abolir, paulatinamente, as relações do sofrer com uma história de desejos que envolvem o sujeito. Esta concepção parece acreditar que em algum lugar esteja pronta a resposta para os enigmas singulares que nos habitam, bastando a nós, de alguma forma e com alguma sorte encontrá-las, provavelmente em alguma revista dominical na qual algum especialista em alguma coisa nos oferte alguns caminhos, supostamente científicos, para uma vida de sucesso...
Vamos assim comprando um conjunto ideológico que afirma que tudo podemos, que nossa vontade tem todo o poder sobre o que será de nós. Dessa forma, uma vez que algo não tenha dado certo ao seu sucesso, certamente algo faltou em sua vontade! O que de modo subrepticio se insinua é que está tudo aí pronto para você, bastando apenas sua vontade. E à pergunta sobre como conseguir essa vontade, os gurus motivacionais nos dizem que devemos ter vontade até mesmo para isso! O sofrimento seria, dessa maneira, um pagamento que os ineptos pagam a um mundo novo onde tudo pode ser encontrado pronto, sem que os sujeitos se responsabilizem por algo da grandeza e estranheza que constitui sua singularidade.
O que vai sendo perdido é a possibilidade de apreensão da beleza de uma busca dessa singularidade, trocada sempre por alguma afirmação generalista sobre o que somos, ou o que deveríamos ser. Preferimos ser depressivos a sustentar a subjetividade de uma tristeza sem nome...



Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
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01 de maio
DO AMOR E SEUS DESTINOS 4
DO AMOR E SEUS DESTINOS (4)


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Perguntávamos-nos, em nosso último encontro, sobre o campo de importância do sofrimento no amor romântico. Apesar de muitas diferenças históricas do valor de sua presença na experiência amorosa, podemos certamente afirmar que o valor da relação amorosa sempre teve o caráter, como posto em artigo anterior, de um caminho para a transcendência de si através do outro amado.
Dessa forma, podemos nos perguntar no que o sofrimento amoroso se relaciona com a busca de transcendência de si.
Por um caminho alternativo talvez possamos ter alguma idéia do que constitui esta relação, focalizando o modo como a idéia mesmo de sofrer aparece ao sujeito contemporâneo. Acredito que, dessa forma, possamos ter alguns parâmetros que nos permitam comparar o valor que podemos perceber, clinicamente, da experiência amorosa hoje, em seus impasses e especificidades, em uma comparação rápida com o lugar dessa vivência em outros momentos da história no que tange à transcendência que mencionamos.
Parece que vivemos na contemporaneidade suspensos em crenças que nos adormeceram no que tange ao papel de cada um de nós, tristemente para alguns intransferível, de responsabilização no que tange ao seu próprio destino. Tais crenças, enquanto regras de ação, nos colocam na posição bovina de apostar que alguém, em algum lugar, pode nos dar a resposta pronta, pode nos aliviar da tarefa de nos engajar na busca de si a partir de sermos tocados de alguma forma pela vida, em sua imprevisibilidade, pelos enigmas e impasses – em sua grandiosa estranheza - que nos constituem enquanto humanos.
A psicanálise, em contraste com a concepção corrente na época em que foi fundada, concebe o sofrimento não como produto (ou merecimento...), de um déficit na capacidade de adaptação do sujeito aos ditames de sua época, hereditária ou moralmente, mas apontando sua pertinência em toda uma série de impasses do sujeito em relação aos fantasmas que o habitam. A tais fantasmas, enquanto marca de uma presença emocional do outro, o sofrimento aparece à psicanálise como referido a uma espécie de tributo a sentir, uma repetição de algo de uma história que não podemos lembrar...
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, nos coloca frente a uma concepção do sofrimento amoroso não visto como sinal de certa incapacidade do sujeito frente à chamada Razão, mas sim como uma marca ao sujeito de certos tributos emocionais pagos a certos fantasmas que desconhece, e que no entanto fazem a tessitura da vivência amorosa em que está inserido.
Em outras palavras, o sofrer nos remete de forma oblíqua a uma espécie de memória, na medida em que reproduz algo de nossa busca de repor o outro - algo dele - enquanto tentativa de “resolução”, na via de nosso sofrimento, de nossa importância e lugar em seu psiquismo. Sofremos no lugar do outro, trazemos para nós, através dele, todo o conjunto de nossa inserção em uma história maior do que a nossa, uma história na qual estamos inseridos e também da qual somos tributários.
Parece-me muito importante chamar a atenção para esse ponto, porque coloca o sofrimento sob a égide de uma história da qual o sujeito aparece como herdeiro involuntário.
O que de nosso sofrimento tem o sabor renovado de uma solidão acalentada? No que ele pode nos mostrar a mais do que nos atravessa, em relação a esse outro que aparece na medida mesmo de sua ausência...
Sofrido falar de tudo isso, principalmente em um ambiente cultural que nos diz que o campo do sofrimento se afigura como uma espécie de azar, caído em nossas cabeças e que de nós nada diz. Nossa dificuldade moderna em encaminhar em nossa história o campo de nosso sofrer está nos fazendo apostar na quimera de um mundo no qual o sofrimento será por fim completamente expurgado. Será que teremos sucesso nesse empreendimento? O que significa tal sucesso? Os psicotrópicos estarão esperando por nós...


Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomática@gmail.com
nucleotavola@gmail.com

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02 de março
DO AMOR E SEUS DESTINOS 2
DO AMOR E SEUS DESTINOS (2)


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

No texto anterior, busquei dar um olhar panorâmico sobre o amor na contemporaneidade. A experiência amorosa tem hoje uma especificidade marcada por toda uma série de problemas, ligados a nossa possibilidade de encaminhamento simbólico de nossas vivências emocionais.
Quando, em psicanálise, nos referimos ao ser humano como atravessado pela linguagem, estamos apontando que nosso psiquismo é uma trama complexa, uma matriz geradora de significações que se articulam internamente, dando lugar e importância emocional ao conjunto de experiências que constituem nossa relação com o mundo, com o outro.
Assim, a psicanálise nos mostra que os fios que nos ligam ao outro, ao amado, são inconscientes para nós mesmos, absolutamente singulares no lugar em que o colocam em nossa vida emocional.
No amor, todo um conjunto de relações que temos com os fantasmas que nos habitam são postos em ato pela via do outro amado, pondo-o na condição de uma espécie de testemunha de minha história. Assim, o sentimento exposto muitas vezes sob a expressão “parece que sempre te amei” corresponde a bem mais que apenas uma figura de retórica. O amor nos implica, na medida mesmo em que, na atualização de toda uma história, de todo um drama que nos atravessa, é uma espécie de lembrança em ato de aspirações, buscas, impasses, boicotes, que marcam nossa forma única de relação frente a alguém posto em lugar de “nunca te vi, sempre te amei”. Lembrança em ato, no sentido de algo que nos coloca, à maneira de um sonho, dentro de uma cena inconsciente à qual respondemos sempre quando amamos.
Sabemos a grande gama de afetos, frequentemente contraditórios, que nos tomam quando estamos dentro de nossos enredos dramáticos inconscientes postos a baila no amor; sabemos da impossibilidade de definir a nós mesmos o que se põe através do sentimento pelo outro. De todo modo, percebemos de modo inequívoco que existem em nós condições inconscientes que marcam por onde alguém será eleito como amado; sabemos que não podemos amar qualquer pessoa a qualquer tempo e de qualquer modo.
Não poderia ser diferente, na medida em que, dentre outras coisas, o inconsciente que nos habita integra o que podemos chamar de nosso sistema de ideais, que regem pela nossa falta nossas aspirações, de forma que no amor amamos a promessa que a presença do amado nos faz no que tange a uma busca de completude, lugar onde o desejo, suas exigências e impasses, deixariam de nos colocar frente a certo mal-estar, uma dolorosa mensagem interna que nos diz que não somos iguais à imagem narcísica que temos de nós mesmos.
No amor, este irredutível estranho em nós se põe na experiência amorosa do sujeito humano, mostrando paradoxalmente que ali, na promessa de completude, existe a marcação simbólica de que aquilo em nós de mais íntimo, o inconsciente, em última instância de nós se furta, se escondendo no mesmo movimento em que se mostra na vivência do amor, trazendo assim no amor aquela profunda impressão de fascinação enigmática que sempre o caracteriza para o amante. Dessa maneira, a beleza da pujante experiência de transcendência de algo de si através da relação amorosa.
O caráter de transcendência de si no amor encontra amparo no sistema de ideais que, por assim dizer, escolhe o ser amado, em torno da lembrança em ato do que poderíamos ter sido e de alguma forma podemos ser pela via do amor ao outro.
Podemos então, a partir da detecção de uma experiência de transcendência de algo de si no amor, pela colocação do ser amado em certo lugar em nossos ideais, nos perguntarmos qual o valor psíquico hoje da experiência amorosa, e qual relação disso com mudanças importantes em curso em nossa constituição e relação com os ideais.




Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomatica@gmail.com
nucleotavola@gmail.com