Monday, July 16, 2007

DO AMOR E SEUS DESTINOS (2)


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

No texto anterior, busquei dar um olhar panorâmico sobre o amor na contemporaneidade. A experiência amorosa tem hoje uma especificidade marcada por toda uma série de problemas, ligados a nossa possibilidade de encaminhamento simbólico de nossas vivências emocionais.
Quando, em psicanálise, nos referimos ao ser humano como atravessado pela linguagem, estamos apontando que nosso psiquismo é uma trama complexa, uma matriz geradora de significações que se articulam internamente, dando lugar e importância emocional ao conjunto de experiências que constituem nossa relação com o mundo, com o outro.
Assim, a psicanálise nos mostra que os fios que nos ligam ao outro, ao amado, são inconscientes para nós mesmos, absolutamente singulares no lugar em que o colocam em nossa vida emocional.
No amor, todo um conjunto de relações que temos com os fantasmas que nos habitam são postos em ato pela via do outro amado, pondo-o na condição de uma espécie de testemunha de minha história. Assim, o sentimento exposto muitas vezes sob a expressão “parece que sempre te amei” corresponde a bem mais que apenas uma figura de retórica. O amor nos implica, na medida mesmo em que, na atualização de toda uma história, de todo um drama que nos atravessa, é uma espécie de lembrança em ato de aspirações, buscas, impasses, boicotes, que marcam nossa forma única de relação frente a alguém posto em lugar de “nunca te vi, sempre te amei”. Lembrança em ato, no sentido de algo que nos coloca, à maneira de um sonho, dentro de uma cena inconsciente à qual respondemos sempre quando amamos.
Sabemos a grande gama de afetos, frequentemente contraditórios, que nos tomam quando estamos dentro de nossos enredos dramáticos inconscientes postos a baila no amor; sabemos da impossibilidade de definir a nós mesmos o que se põe através do sentimento pelo outro. De todo modo, percebemos de modo inequívoco que existem em nós condições inconscientes que marcam por onde alguém será eleito como amado; sabemos que não podemos amar qualquer pessoa a qualquer tempo e de qualquer modo.
Não poderia ser diferente, na medida em que, dentre outras coisas, o inconsciente que nos habita integra o que podemos chamar de nosso sistema de ideais, que regem pela nossa falta nossas aspirações, de forma que no amor amamos a promessa que a presença do amado nos faz no que tange a uma busca de completude, lugar onde o desejo, suas exigências e impasses, deixariam de nos colocar frente a certo mal-estar, uma dolorosa mensagem interna que nos diz que não somos iguais à imagem narcísica que temos de nós mesmos.
No amor, este irredutível estranho em nós se põe na experiência amorosa do sujeito humano, mostrando paradoxalmente que ali, na promessa de completude, existe a marcação simbólica de que aquilo em nós de mais íntimo, o inconsciente, em última instância de nós se furta, se escondendo no mesmo movimento em que se mostra na vivência do amor, trazendo assim no amor aquela profunda impressão de fascinação enigmática que sempre o caracteriza para o amante. Dessa maneira, a beleza da pujante experiência de transcendência de algo de si através da relação amorosa.
O caráter de transcendência de si no amor encontra amparo no sistema de ideais que, por assim dizer, escolhe o ser amado, em torno da lembrança em ato do que poderíamos ter sido e de alguma forma podemos ser pela via do amor ao outro.
Podemos então, a partir da detecção de uma experiência de transcendência de algo de si no amor, pela colocação do ser amado em certo lugar em nossos ideais, nos perguntarmos qual o valor psíquico hoje da experiência amorosa, e qual relação disso com mudanças importantes em curso em nossa constituição e relação com os ideais.




Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomatica@gmail.com
nucleotavola@gmail.com


DO AMOR E SEUS DESTINOS (1)


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Amar dá trabalho...
É sobre o amor e sua importância na fundação do psiquismo humano que vou buscar explicitar, e também implicar, nos implicar...
Podemos ver quão potente se tornou ao sujeito contemporâneo o imaginário em torno do amor romântico. Aqui, vou buscar ressaltar as condições culturais e históricas que constituíram a apreensão contemporânea do ideal do amor romântico e seu valor no campo de ideais do sujeito.
Quando aponto condições culturais e históricas da vivência do amor, busco marcar a existência de certas concepções essencialistas do amor, que o concebem como algo cuja vivência e importância psíquica e social seriam invariáveis e iguais a si mesmas. A História, a Antropologia Cultural, a Filosofia, a Literatura e a Psicanálise, para ficar por aqui, mostram que o amor e seu papel na subjetividade humana variaram imensamente ao longo da história.
Para fazermos um paralelo rápido, imaginemo-nos dizendo a um homem livre na polis grega 2.500 anos atrás, que a grande experiência de êxtase atingível seria a recomendada pelos poetas românticos do século 19, de que morrer pelo amor a uma mulher tem um quê do inefável prazer da fumaça que sai do cachimbo...Ele certamente rolaria de rir, nos dizendo que as mulheres, os escravos e os animais pertencem à ordem da necessidade e não à ordem da liberdade à qual ele pertence. Na Grécia, a ética pederasta era o auge da apreensão subjetiva do amor pelos homens livres.
Apenas uma comparação histórica rápida para dar uma idéia do que procuro mostrar. Em outras oportunidades, espero poder olhar de forma mais acurada para a especificidade das vivências amorosas ao longo de determinadas épocas históricas. Por hoje, esta comparação é suficiente para nos instigar a pensar em torno de quais condições o amor passou a ter a importância psíquica que tem hoje e qual é ela.
Como podemos circunscrever esta importância?
No projeto de uma série de conferências que promovo há um ano, chamado “Senso e Contra Senso da Revolta”, venho apresentando o fenômeno do rebaixamento do valor dos ideais na contemporaneidade, me referindo à perda do conjunto de investimentos afetivos em ideais que, no processo de sua construção, possam oferecer possibilidades de novos sentidos para a vida. Levanto a hipótese - e vou buscar mostrar aqui em outros artigos as mediações – que tal rebaixamento vem sendo há tempos concomitante a uma substituição que podemos colocar sob a expressão: “Não sonhe nada! Nós sonhamos por você. Seu sonho está pronto, aqui, neste objeto de consumo que te oferecemos”.
Parece que fomos sendo paulatinamente convencidos a substituir a árdua e grande tarefa de constituir e sustentar nossas relações com um campo de ideais pelo apelo ao pronto do objeto de consumo. O objeto aparece assim como garantindo minha pertinência frente ao olhar do outro, olhar que estrutura a relação que tenho comigo mesmo.
Se tomarmos o conteúdo dessa diretiva acima e levando em conta o que nos ensina a psicanálise, no que tange à importância fundacional da relação com o outro e seu olhar no processo de constituição da subjetividade, podemos perceber algo do paradoxo moderno na relação dos sujeitos com o ideal do amor romântico:
“Quero muito amar, parece a redenção para mim, já que mostra ser o único ideal em que tenho que me implicar sem comprar, que o consumo já não cumpre sua promessa, mas será que consigo sendo que no amor o outro precisa existir, também no seu potencial de me fazer sofrer. Quero café descafeinado, chocolate laxante, amor sem sofrimento. Em que balcão está?”



Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomatica@gmail.com
nucleotavola@gmail.com
O OCASO DO BEM COMUM


LUÍS HENRIQUE MILAN NOVAES

Parece que estamos vivendo o ocaso da idéia de bem comum que sempre definiu, desde a antiguidade, a prática política na polis grega. A idéia de bem comum presumia que os assuntos humanos a todos concernentes fossem tratados desde uma perspectiva de futuro que garantisse a preservação do que naquela civilização fosse apreciado como o que de melhor devesse continuar existindo na história.
Dentro da filosofia política essa idéia exigia dos chamados cidadãos livres que se lançassem ao espaço público desembaraçados dos afazeres relacionados ao campo da necessidade, da manutenção da vida biológica, da reprodução da existência física. A vida política pressupunha uma transcendência da necessidade em busca de um lugar no mundo marcado pela idéia de liberdade, buscada na constituição daquele espaço público onde o encontro entre os homens pudesse vir a demarcar o que pudesse ser criado e valorizado como bem comum. Quando nos referimos à bem comum, dizemos de algo que possa se colocar como uma espécie de farol sinalizador de valores e aspirações culturais da sociedade, para além do campo das diferenças entre grupos e indivíduos que sempre marcam a vida social.
Buscar a constituição do conteúdo específico do que possa ser bem comum a uma dada sociedade é certamente das maiores tarefas da vida política, tarefa que parece abandonada no que percebemos da cultura política no Brasil.
A prática política nos parece cada vez mais caracterizada por vários aspectos, que apontam contra a constituição de uma nação, no sentido lato do termo, construção que pressupõe a existência e eficácia de instrumentos e instituições que, em última instancia, têm seu sentido maior na tarefa de proteger o conjunto do ideário relacionado ao bem comum. Em nossa sociedade, esse ideário é formado historicamente pelos valores republicanos e democráticos.
A defesa desse ideário não tem encontrado respaldo no funcionamento institucional brasileiro, conspurcado por uma prática política marcada pela ausência de um fazer direcionado pela idéia de bem comum e prenhe de ações de grupos políticos, em sua relação com setores da sociedade civil, que certamente possuem em sua relação com o Estado brasileiro uma postura predatória, no sentido de concebê-lo como uma espécie de “doador universal”; mãe sem fim que os abastece do leite que o capitalismo sem risco brasileiro inventou de modo inédito no mundo.
Consternados, os cidadãos que ainda não se renderam ao completo cinismo que assola a vida política e sua relação com a sociedade, se perguntam sobre um sentimento de orfandade e superfluidade na relação com o país, na medida que percebem que alguns rompem o pacto, o tácito pacto da abdicação de imaginar algo diferente de um gozo de si. Imaginar ainda poder acreditar na capacidade da vontade humana de intervenção, fazer alguma diferença...
Parece que passamos a acreditar que o país está entregue à gentalha política; que não podemos fazer qualquer diferença; que devemos, de toda forma, pensar que todos somos estúpidos e descartáveis, na medida em que não fomos convidados para a grande festa dos que abandonaram sua tarefa com o país; dos que desejam mas ainda não entraram na grande festa do poder. O futuro talvez nos reserve uma câmera que defina nosso futuro, nossa esperada participação no butim...
Acredito que precisamos nos colocar de uma forma que não pressuponha o que em outro artigo chamei de moral do espetáculo, que consiste em acreditarmos que algum dia, em um futuro em que não podemos saber qual será, estaremos aqui; que o mundo pode nos esperar, que a vida terá um segundo tempo e poderá nos aguardar.
A moral do espetáculo nos coloca na posição de um turista descomprometido no mundo. Alguém irá chorar por nós. Apenas não sabemos quem e pelo que. O que importa, ainda?...


Luís Henrique Milan Novaes
Psicanalista
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Ribeirão Preto
Coordenador do Núcleo Távola – Instituto de Pesquisa em Psicanálise
psicossomática@gmail.com
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